sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Não quero mais escrever cartas


Não quero mais escrever cartas, já estão todas empilhadas no canto esquerdo do meu quarto, especificamente, atrás da porta, lá é um bom lugar, não preciso vê-las a todo instante. Amanhã vou separá-las por datas, eu sei que todas serão cremadas, mas prefiro acreditar que arrumando a bagunça externa, a interna se ajeita automaticamente.
Ontem, enquanto procurava as cartas escritas (pois existem as cartas mentais), encontrei aquela nossa carta, o riso escapou por entre os lábios, você dizia nela que a palavra ........ seria o nosso símbolo, o nosso segredo mais profundo, a senha para qualquer mistério, pois aquela palavra foi a primeira que eu havia dito para você.
Já faz tanto tempo... me enfureci, rasguei cada palavra, cada sonhos, cada poesia, cada promessa, restou apenas retalhos e os sentimento de desilusão; tudo foi picado, até mesmo o meu coração. Os vestígios estão naquela caixa cinza em que veio o urso, o diamante negro e uma carta, esta eu não reli, ignorei, fingi não ter visto. A memória me castigou, lembrou-me das lágrimas emocionadas que caíram quando vi seus presentes.
Joguei também, além das cartas, o brinco rosa que você adorava, eles pesam demais, rasgam minha concentração.
Nada vai voltar para você, ficarão ali jogadas, até eu decidir o destino delas; os bilhetes trocados também, e não quero nada de volta; somente o pedaço de luz que tomastes de mim.
As cartas que escrevi e não tive coragem de mandar, agora vão neste envelope, com o único propósito de que você saiba o quanto te amei, o quanto sofri, o quanto você perdeu. Mando junto o seu presente de natal. Não cabe mais nada aqui, em mim.
Boa noite,
Durma com os anjos!

3 comentários:

  1. Não cabe mais nada aqui, em mim... @@

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  2. Patty, nossinhora! hahaha..
    "Mas prefiro acreditar que arrumando a bagunça externa, a interna se ajeita automaticamente."

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  3. Oi, Patty, bom dia!!
    Belíssimo texto, carregado de uma doce melancolia, de muita poesia, de muita imaginação e de muita sensibilidade. Quem de nós não guarda cartas que a mente escreveu ou recebeu?
    Um abraço
    Marcelo Bandeira

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